Valéria Pássaro fala sobre a metodologia de trabalho da Casa das Expedições

À frente da Casa das Expedições (SP), Valéria Pássaro é responsável por um trabalho modelo em entidade de acolhimento. A proposta é promover a reintegração familiar de meninos e meninas e colaborar com a ressignificação da história deles a partir do conhecimento da cidade, do país e do mundo.

Atualmente, a instituição coordenada por ela atende 22 crianças e adolescentes. No último ano, realizou nove reintegrações, entre crianças e jovens que voltaram para casa ou completaram 18 anos e seguiram sozinhos, mas reconciliados com a família.

Neste mês, a convite do Instituto Berço da Cidadania, a coordenadora da Casa das Expedições ministrou curso em Brasília, voltado para os profissionais dos serviços de acolhimento, gestores da Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda do DF (Sedest) e coordenadores do Ministério do Desenvolvimento Social.

Confira nesta entrevista um pouco do que foi debatido no curso.

Instituto Berço da Cidadania – Como você resumiria a metodologia utilizada na Casa das Expedições?
Valéria Pássaro – Na nossa metodologia, o mais importante ressignificação das histórias de vidas meninos e suas famílias. Não adianta fazer trabalho pontual sem fazer um percurso na vida de cada um. Não dá para pensar o hoje e o amanhã, sem pensar no que foi ontem. Partimos desse pressuposto que pensa o ontem para, depois, durante o acolhimento, pensarmos o projeto vida. Nesse contexto, paralelamente ao conhecimento pessoal, há o conhecimento da cidade e do mundo.

Como essa metodologia é apresentada às crianças e jovens?
Quando eles chegam, não têm consciência que é preciso fazer isso. Existem apenas relatórios falando de vida deles, mas são burocráticos e não tratam das histórias mais significativas. Lemos tudo que tem de material e pedimos que digam com o que concordam, com o que discordam e como eles querem contar as próprias histórias, o que falta nessas histórias. Quando começam a perceber que faltam dados, iniciamos as pesquisas com eles. Vamos procurar o que está faltando juntos, fazemos um mosaico. Nessa busca de entender o que aconteceu, também buscamos a família. É aí que entramos na família e mergulhamos de fato na história da família.

De que maneira a história da família influi na história desse menino ou menina?
Percebemos que os meninos têm histórias parecidas com as das suas famílias. Mas nossa ideia é que não há destino que se autocumpre. Quando ele toma consciência da história, quando a família toma consciência, ele passa a planejar o futuro.

De que forma o conhecimento da cidade influi no trabalho realizado pela Casa das Expedições?
À medida que o menino ou a menina vai tomando consciência de sua história, a gente vai elaborando alguns processos de repertório de mundo e de linguagem. Conhecer a cidade a partir do um ponto de vista cultural é um primeiro passo. Muitos deles tinham um conhecimento periférico da cidade. A ideia é que eles possam acessar a cidade em outro contexto. Pensamos em fazer a inclusão por um bem cultural. Foi aí que surgiram expedições. Entendemos que as expedições são processos de procura que ocorrem, simultaneamente internamente e externamente.

Quais os resultados das expedições verificados nos meninos e meninas?
Dentro desse processo, a criança e o jovem vão criando autonomia. Eles são provocados, aprendem a dizer ‘quero’, ‘não quero’, ‘sonho isso’, ‘gosto’, ‘não gosto’. Junto com essa autonomia, a gente vai experimentando junto, a gente vai mediando, isso no tempo de cada um.

Em que momento o contato com as famílias é retomado?
No momento que eles vão criando autonomia e vão vendo as possibilidades aumentarem, a reaproximação vai acontecendo. São processos conjuntos. Na casa não tem dia de visita, as famílias podem aparecer quando têm saudade. As famílias também são convidadas a participar das expedições e tentamos incluí-las no dia a dia da criança ou jovem, com participação em reuniões escolares, consultas médicas. Também há reuniões com as outras famílias na Casa.

E como as famílias costumam reagir ao trabalho realizado pela Casa das Expedições?
De maneira geral, elas são acessíveis. Quando percebem que a gente não está concorrendo no afeto e não os estamos moralmente julgando, costumam aderir muito rapidamente. Essa questão do julgamento moral é importante. A gente procura minimizar o julgamento de por que abandonou, por que foi violenta, por que tem muitos filhos. Procuramos entender o contexto do que aconteceu com pai e com a mãe. Quando a gente entende o que aconteceu com eles, a gente consegue acessá-los de maneira mais tranquila.

Que resultados desse trabalho com as famílias podem ser mensurados?
Nesse último ano de trabalho, tivemos adesão de 100% das famílias. Por iniciativa deles, foi criado um grupo de ajuda mútua. As famílias vêm acessando bem questões que não acessavam antes, como a perspectiva de direitos. Elas vão sendo mais informados e a autoestima vai se fortalecendo para a busca de direitos.

Qual o perfil da equipe de profissionais que atua na Casa das Expedições?
Um dos pontos fundamentais da equipe é a profissionalização e a formação continuada, tem que estudar. Não adianta ter prática e não ter teoria. Esse tipo de serviço costuma ser baseado no bom coração. Mas eu vejo como mais do que querer fazer o bem, vejo como a criação de condições para que essa família esteja com seu filho. Assim, a postura profissional não é só regrada por assistencialismo, mas pela educação também.

O que você pode perceber durante o curso em Brasília sobre essa questão da profissionalização do atendimento?
A questão do reconhecimento financeiro foi um ponto muito forte. Em Brasília, há abrigos onde cuidadoras que ganham R$ 400 e outros onde ganham R$ 4 mil. Essa disparidade chama muito atenção e leva à reflexão de como esse profissional vai cuidar de alguém se não está sendo cuidado.

O foco da Casa das Expedições é a reintegração. Existe um atendimento após a saída do menino ou menina?
A gente faz preparação antes e depois, o acompanhamento dura tempo que família julgar necessário, é um dado que a própria família traz, em média, dura seis, sete meses, mas isso não tem que ser um padrão. Mesmo depois que eles informam que está tudo bem e o acompanhamento técnico não é mais necessário, é normal mantermos o contato, seja por telefone ou por visitas eventuais à Casa. Viramos referência para o menino e para aquela família, inclusive uma referência afetiva.

Uma ideia sobre “Valéria Pássaro fala sobre a metodologia de trabalho da Casa das Expedições

  1. Fiquei encantada com o trabalho, Valéria e Dirce, obrigada por compartilharem. Temos um trabalho similar, em alguns aspectos, como vocês sabem, mas a leitura desta entrevista já me fez pensar que podemos maximizar o Fazendo Minha História como ferramenta de aproximação com a família.

    Obrigada e muito bom trabalho para vocês!
    Claudia

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